A noite no Tocantins tem um silêncio que, às vezes, mente. É um silêncio de varanda, abafado pelo calor e pelo som distante de uma ou outra moto. Foi nesse cenário, com o celular na mão, que me deparei com o teatro diário do poder. O portal Folha do Girassol (esse arauto da informação com credibilidade, como diz o próprio slogan) publicava a pauta: “Ordiley Valcari é apontado como principal articulador da candidatura de Moisemar à presidência da Assembleia”.
O texto era bom. Jornalismo de bastidor, aquele que exige fôlego, fontes e coragem. Lá estava o retrato da política real: a luz precisando fazer acordos com a sombra. Como comentarista que há mais de doze anos navega nessas águas turvas, resolvi exercer o meu modesto ofício. Deixei meu comentário. Um desabafo de quem já teve a vida defenestrada em ações judiciais por publicar o óbvio. Escrevi o que a rua comenta, o que o medo sussurra e o que a lógica impõe.
Escrevi, ipsis litteris, o seguinte, lá naquele terreno árido que afoga muita gente navegando no chamado Instagram:
[sic]
“A articulação nos bastidores, segundo consta, passa pelas mãos de Ordiley Valcari, marido da deputada eleita Janad. O Tocantins inteiro sabe quem é Ordiley e o impacto conturbado que ele causa por onde passa. Eles e sua esposa devem ser reconhecidos pelo resultado pragmático que alcançaram nas urnas este ano, ponto e só. A que custo conquistaram isso? Eu não sei e nem me permito pensar. Como profissional de comunicação que teve a vida defenestrada em ações judiciais por publicar o óbvio em 2024, no site Tocantins Agora, prefiro o instinto de sobrevivência. Acredito que as pessoas mudam, no entanto, é muito difícil substituir o único sentimento que ainda hoje nutro pelos Valcari: MEDO.
Tudo isso evoca a crueza cirúrgica de “As 48 Leis do Poder”, de Robert Greene. Greene disseca magistralmente o perigo tático e moral de quando a luz precisa fazer acordos com a sombra. Quando uma pessoa de trajetória correta se vê obrigada a se aliar a figuras de natureza obscura, duvidosa e perigosa para atingir um fim, ela flerta com o próprio precipício. É a clássica armadilha do poder: usar alianças predatórias como escudo ou alavanca. Mas, como a obra alerta, essas forças raramente são domadas; elas cobram pedágios altíssimos de quem tenta usá-las. A escuridão não serve à luz de graça.
O que nos resta é a perplexidade ácida: o que realmente querem com isso? Que retorno prático e possivelmente sombrio esperam dessa “articulação”? Será que essa demonstração de força nos bastidores se dá apenas e tão somente pelo viés financeiro? E, se for este o caso, qual é a verdadeira origem desse capital? O mais assustador paira no ar: tudo isso significa que os parlamentares que acabaram de ser eleitos pelas esperanças do povo serão agora espremidos contra a parede, pressionados a cederem seus votos para a presidência da Assembleia? O sistema é implacável, e a fatura, invariavelmente, sempre chega.”
Pois bem. Aconteceu a mágica. O ilusionismo da era digital.
Num passe de mão, o post desapareceu. O link da matéria virou pó. O Error 404 esse cemitério virtual das vaidades sorriu para mim na tela. E tudo isso, caros leitores, ocorreu logo após o meu modesto comentário.
Mera casualidade, óbvio. O universo conspira de formas misteriosas.
Todo o meu respeito, repito, à corajosa e autêntica linha editorial desse veículo de rara personalidade. Fico apenas com uma pulga atrás da orelha (ou seria um girassol murcho?). O que leva uma redação formada por profissionais que escrevem tão bem, que apuram os bastidores com esmero, a aprovar uma pauta, levá-la ao ar, e depois, por uma chocante coincidência cósmica, deletar o próprio trabalho?
Tenho a mais absoluta certeza, e aqui a minha ingenuidade me transborda, que não foi a pedido de terceiros. Ué, para um veículo de tamanha envergadura em credibilidade profissional, isso não é mesmo possível. Impensável, mais ainda, não me permito nem imaginar, que “tentáculos Valcarianos” alcancem de alguma forma os colegas desta admirável redação jornalística. Seria uma afronta à liberdade de imprensa imaginar que o eco de um simples comentário no Instagram pudesse reverberar como um trovão nos corredores da redação, forçando o dedo do editor no botão delete.
A verdade é que vivemos a era do medo líquido. O poder não precisa mais mandar matar a notícia com um tiro, ele apenas sussurra, e o jornalista, num ato de puro “instinto de sobrevivência”, digita o comando de excluir. É o teatro do absurdo. Onde a notícia nasce, cresce, e é assassinada pelo próprio pai, no berço, por medo do padrinho. Como dizia aquele velho e bom niilismo de boteco: “a luz não faz acordos com a sombra de graça. Alguém sempre paga a conta”. E, desta vez, a conta foi paga com a própria pauta.
Fica a crônica. Fica o alerta. E, acima de tudo, fica a única arma que o poder não consegue deletar: o print.
O print é eterno. A verdade, coitada, é só um sopro.
Haja o que houver,
Kim Nunes – comentarista político


