
“A criança que desenvolve o imaginário hoje pode ser a mente que amanhã faz avançar o conhecimento e contribui para transformar o mundo”. Essa é uma ideia que merece mais atenção do que costuma receber. A capacidade de imaginar e pensar além do que já existe está na origem de novas ideias, invenções, descobertas científicas e avanços nas mais diversas áreas do conhecimento. Rollo May, em A Coragem de Criar, aproxima a criatividade dos grandes cientistas daquela desenvolvida na infância pelo imaginário: foi dando vazão à fantasia, ainda cedo, que a mente de grandes inventores se abriu e, na idade adulta, aliada ao conhecimento acumulado nos estudos, os conduziu às suas descobertas. Ou seja, a fantasia não é luxo pedagógico, é estrutura. A Educação Infantil, no entanto, está cada vez mais voltada aos valores cognitivos: a criança precisa aprender a ler mais cedo, escrever, somar, multiplicar. Nesse ritmo, subestima-se algo essencial — o espaço para criar e deixar a imaginação fluir. É aqui que a arte, seja pela literatura, pelo desenho, pela música ou pelo teatro, cumpre um papel que nenhuma tela substitui: ela não apenas entretém, constrói. A expressão artística fortalece três dimensões da criança: a emocional, ajudando-a a nomear sentimentos que ainda não sabe verbalizar; a cognitiva, estimulando o raciocínio simbólico e a resolução criativa de problemas; e a social, já que criar em grupo ensina cooperação e empatia. Esse cuidado se torna ainda mais urgente diante de um cenário conhecido: o tempo crescente que crianças pequenas passam diante de telas. O excesso de tecnologia na primeira infância já foi associado a atrasos na linguagem, dificuldades de atenção e menor repertório de brincadeira simbólica, justamente aquela que alimenta a imaginação. Como escritora e arteterapeuta, também ligada à área científica, procuro unir essas vertentes ao escrever para crianças, levando a elas o saber da ciência permeado de encantamento. É o que busquei, por exemplo, em O Alfabeto dos Animais, obra em que ciência, poesia e ludicidade se encontram, e que ganhou ainda mais significado ao ser ilustrada por uma criança de oito anos. Afinal, ciência e fantasia não estão em lados opostos, uma é caminho para a outra. Cada linguagem artística oferece à criança uma forma diferente de organizar o mundo. E, nesse processo, pais, avós e educadores têm um papel decisivo: são eles que, no dia a dia, estimulam a expressão artística da criança, ajudando-a a descobrir seu potencial criativo e a sentir-se capaz de gerar algo novo, do zero. É por isso que a arte é indispensável à infância. Não porque acrescente beleza ao currículo, mas porque amplia o próprio horizonte do que uma criança pode pensar, sentir e imaginar. É nesse exercício de criar outros mundos que ela começa, também, a descobrir que o mundo em que vive não é imutável e que pode transformá-lo. *Consuelo Pagani é escritora, poetisa, arteterapeuta e artista plástica.




