A polarização política voltou a provocar tensões no Tocantins após o segundo turno das eleições de 2026. Listas identificando comerciantes, empresas, profissionais liberais e até veículos de comunicação como supostamente ligados à esquerda estão circulando em grupos de WhatsApp e redes sociais, com mensagens incentivando consumidores a boicotar estabelecimentos e serviços por motivos políticos.
Os materiais têm sido compartilhados em diferentes municípios tocantinenses, incluindo Palmas, e reproduzem um comportamento que também ganhou repercussão nacional após as eleições presidenciais de 2022.
As listas atribuem posicionamentos político-eleitorais a empresários, comerciantes, advogados, profissionais da saúde, jornalistas e outros trabalhadores. Entretanto, não há comprovação de que as pessoas e empresas mencionadas tenham declarado apoio a determinado candidato ou partido.
Em uma das mensagens divulgadas no estado, os responsáveis incentivam o boicote a empresas classificadas como petistas e orientam os participantes a deixar de acompanhar determinados veículos de comunicação e perfis nas redes sociais.
A situação reacende o debate sobre os limites da polarização política, especialmente quando divergências eleitorais passam a interferir nas relações comerciais, profissionais e pessoais.
OAB-TO divulga nota de repúdio
Diante da circulação das listas, a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Tocantins (OAB-TO), divulgou uma nota de repúdio à exposição de pessoas e empresas em razão de suas supostas preferências políticas.
A entidade manifestou preocupação com possíveis constrangimentos, discriminação e retaliações contra os profissionais mencionados.
“A liberdade de expressão e a pluralidade de ideias são pilares do Estado Democrático de Direito e devem ser exercidas com responsabilidade, respeito e observância aos direitos e garantias fundamentais”, destacou a OAB-TO.
A Ordem também alertou que a exposição de pessoas por suas preferências políticas pode ter consequências jurídicas.
“Iniciativas que possam resultar em constrangimento, discriminação ou retaliação no âmbito pessoal e profissional merecem atenção e, conforme as circunstâncias, podem estar sujeitas às medidas legais cabíveis”, afirmou a entidade.
A OAB-TO manifestou solidariedade às pessoas atingidas e reafirmou seu compromisso com a defesa da Constituição, da democracia, da dignidade humana e do livre exercício profissional.
A entidade informou ainda que continuará acompanhando a situação, especialmente quanto à proteção das prerrogativas dos advogados e das condições necessárias ao exercício independente da profissão.
Polarização ultrapassa as urnas
A circulação das listas evidencia como as disputas eleitorais continuam repercutindo nas relações sociais e econômicas mesmo depois da definição dos vencedores.
Embora cada consumidor tenha liberdade para escolher onde comprar ou contratar serviços, a divulgação de informações sobre terceiros com o objetivo de promover constrangimentos, ameaças ou discriminação pode ultrapassar os limites da manifestação legítima de opinião.
A depender das circunstâncias, a exposição indevida também pode atingir direitos relacionados à honra, à imagem e à privacidade das pessoas envolvidas.
Ter uma preferência política, votar em determinado candidato ou manifestar uma opinião não retira de ninguém o direito de trabalhar, empreender e exercer livremente sua profissão.
O episódio expõe a permanência de um ambiente de intolerância política que ultrapassa o período eleitoral e atinge diretamente cidadãos e atividades econômicas.
Com o encerramento das eleições, o desafio passa a ser também o de restabelecer a convivência respeitosa entre pessoas que fizeram escolhas diferentes nas urnas, evitando que divergências partidárias se transformem em instrumentos de hostilidade, constrangimento ou perseguição.
A disputa eleitoral terminou, mas o respeito às diferenças e às liberdades individuais precisa prevalecer, independentemente de quem venceu ou perdeu nas urnas


