Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT). A obra “Os Possessos”, publicada por Fiódor Dostoiévski em 1872, configura-se como um dos mais penetrantes exames (talvez o mais profundo) da psicologia política já concebidos pela literatura universal. O romance, também traduzido no Brasil como “Os Demônios”, não se limita a um retrato datado da Rússia czarista já historicizada pelo passado; constitui uma anatomia da possessão ideológica que encontra ressonâncias correspondentes na contemporaneidade brasileira. A gênese da narrativa remonta a um episódio factual que abalou a intelligentsia russa: o assassinato do estudante Ivan Ivanov por membros de uma célula niilista liderada por Sergei Nechayev, em 1869. Dostoiévski, valendo-se desse substrato histórico, erige uma ficção na qual uma cidade provinciana é tomada por uma organização terrorista dedicada à subversão da ordem vigente. O enredo gravita em torno de Nikolai Stavrogin, aristocrata de fascínio magnético e vacuidade moral absoluta, e de Piotr Verkhovensky, o conspirador que instrumentaliza ideias e indivíduos na perseguição de um poder abstrato. A galeria de personagens compõe um mosaico de formas de niilismo: Kirillov, o suicida que busca na autodestruição a prova derradeira da liberdade humana; Chatov, o trágico buscador de uma fé nacional mítica; e o próprio Verkhovensky, encarnação do maquiavelismo revolucionário que reduz seres humanos a peões de um projeto de dominação. O título da obra evoca a passagem evangélica do homem possuído por uma legião de demônios, tal metáfora opera como chave interpretativa central. Os demônios de Dostoiévski não são entidades sobrenaturais, são ideias que se apoderam de corpos e consciências, transformando sujeitos em veículos de fanatismo, ressentimento e destruição. O romance diagnostica uma patologia coletiva na qual o pensamento político, desconectado de qualquer fundamento metafísico ou ético, passa a sacrificar o indivíduo em nome de um futuro abstrato. A conclusão do narrador é inequívoca: onde a transcendência é negada, a violência instala-se como método e a mediocridade erige-se em norma. A transposição desse quadro analítico para a realidade brasileira recente revela-se não como exercício de analogia gratuita, antes como instrumento de elucidação de fenômenos que desafiam a racionalidade convencional. A afinidade entre o tipo psicológico representado por Piotr Verkhovensky e certas manifestações do populismo contemporâneo brasileiro tem sido objeto de escrutínio acadêmico e jornalístico. O ressentimento profundo contra a excelência intelectual, a ânsia desmesurada por primazia e a predisposição para rebaixar o nível da educação e da ciência como estratégia de perpetuação no poder configuram traços que o romance antecipa com precisão perturbadora. A máxima atribuída ao conspirador dostoievskiano, segundo a qual a sede de instrução é aristocrática, encontra eco em discursos e práticas que, no Brasil, converteram o anti-intelectualismo em plataforma de governo e o negacionismo científico em política de Estado. O niilismo que contamina a Rússia ficcional de Dostoiévski manifesta-se, no cenário brasileiro, não apenas como rejeição de valores transcendentais, mas como uma postura de desconstrução do próprio sentido da vida coletiva e das instituições democráticas. A tentativa de ruptura da ordem constitucional ocorrida em 8 de janeiro de 2023, precedida por campanhas sistemáticas de desinformação e por uma retórica de deslegitimação do processo eleitoral, inscreve-se nessa linhagem de niilismo político que visa à dissolução do tecido institucional. O messianismo salvacionista, que promete a resolução total dos problemas nacionais pela ação de um líder providencial, reproduz a estrutura da possessão ideológica descrita no romance: a crença de que um projeto político, por mais incoerente que seja, detém a chave da regeneração nacional. A obra de Dostoiévski, no entanto, não se esgota na denúncia do niilismo revolucionário. Sua crítica incide igualmente sobre os fanatismos religiosos e os ultraradicalismos, revelando que a possessão ideológica não é monopólio de um espectro político. A lição que “Os Possessos” oferece ao leitor brasileiro contemporâneo reside na percepção de que a política, quando divorciada da responsabilidade ética e da reverência à verdade, degenera em teatro de possessos. A advertência do romancista permanece atual: aqueles que pretendem transformar o mundo pela força de uma ideia, sem examinar os demônios que habitam o próprio coração, arriscam-se a tornar-se exatamente os monstros que juraram combater. *Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
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