Parabéns ao senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) por sua determinação ao ser o único senador a votar contra o fim da escala 6×1. Já o senador e pré-candidato à Presidência da Repúbica, Flávio Bolsonaro, que se posicionava contra a medida, acabou votando a favor na última hora, com objetivo eleitoreiro. A pressão popular faz parte do Estado Democrático de Direito, mas cabe aos políticos interpretá-la à luz da Constituição e do interesse nacional. Ao mudar de posição, Flávio Bolsonaro demonstra falta de firmeza para quem pretende governar o País. Sua atitude reforça dúvidas sobre outras promessas de campanha, como a de não disputar a reeleição, compromisso semelhante ao assumido anteriormente por seu pai e não cumprido. Nelson Rodrigues escreveu: “Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral”. A observação continua provocativa e atual quando se analisa a realidade do Congresso Nacional. Não tenho nada a reclamar dos governos militares. Foi um período de paz para quem não se envolvia com política. Ainda assim, jamais imaginei que o Brasil seria presidido por um ex-capitão desequilibrado, praticamente expulso do Exército, que, após quase 30 anos de vida parlamentar, não conseguiu aprovar nenhum projeto de grande relevância nacional. A trajetória de Flávio Bolsonaro também é marcada por controvérsias. Conhecido pelo caso das “rachadinhas”, seu nome foi associado ao longo dos anos a investigações, personagens controversos e frequentes questionamentos públicos. Veja o seu envolvimento com Daniel Vorcaro. Também não se pode esquecer a condução da pandemia pelo governo Jair Bolsonaro. Em um dos momentos mais dramáticos da história recente do País, em meio a centenas de milhares de mortes, ele minimizou a gravidade da Covid-19, promoveu tratamentos sem eficácia comprovada e ironizava que não era coveiro. A família Bolsonaro transformou a política em um projeto familiar de poder. Há anos ocupa cargos eletivos e amplia sua influência dentro do Estado brasileiro. A verdade é que Flávio Bolsonaro, porta-voz político do pai e que tem como missão principal, se for eleito, tirar Bolsonaro da prisão, carece da autonomia e da preparação necessárias para assumir a Presidência da República. Não vejo diferença substancial em trocar seis por meia dúzia. Lula, com todos os seus problemas, limitações e contradições, sempre me pareceu menos prejudicial ao Brasil do que a família Bolsonaro, que, em minha avaliação, encara o poder menos como instrumento de serviço público e mais como meio de preservar interesses próprios. Fato intrigante para apreciação do eleitor. No debate da Band (18/10), Lula foi incisivo: lançou um desafio direto a Flávio Bolsonaro. Propôs a quebra dos sigilos bancário e telefônico de ambos, estendendo a medida também às respectivas famílias. Se Flávio está tão convencido da própria lisura quanto costuma afirmar em público, por que rejeitou a proposta? Se não há nada a esconder, não deveria resistir à transparência. *Júlio César Cardoso é servidor federal aposentado.
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